Publicado por: Ruben em: 2009/06/18
Meus avós não estão mais comigo, mas muito coisa deles continuam em mim.
Não sei de onde saiu minha admiração por tornozelos femininos. Acho que por serem mais raros que a preferencia nacional abundante. Lembro que minha avó materna sempre repetia sobre mulheres de largos mocotós serem sempre preguiçosas ou desastradas.
No primeiro dia de Malu como companheira de apartamento eu te mostrei novamente o ambiente e, já que estávamos dividindo o teto, o chão e paredes, achei por bem falar sobre as poucas coisas que tenho algum cuidado. A maioria delas estavam no meu quarto. Um computador velho, uma tv de 14″ digna de ser matéria de revista eletrônica, meu diskman e alguns CDs que comprei durante minhas viagens. Estes, sem dúvidas, os que mais cuido.
O interessante era que ela parecia distante enquanto eu falava, mas mudou de ares e ficou atenta no momento em que mencionei privacidade. Os quartos são como nossas casas dentro do apartamento, o único cômodo que merecia maior respeito. Preciso de permissão para entrar no dela e ela para entrar no meu. Essas observações eram minha contribuição com a chatice do recinto.
Depois de quase uma semana, quando voltava pra casa no fim da tarde, sempre era surpreendido com uma novidade nada agradável. Descobri nestes primeiros dias que minha avó não me falava sobre uma máxima. Tudo ela dizia sobre tornozelos era uma premonição sobre minha vida futura. Já presente agora.
Não entendi o poder da Malu em deixar um ambiente vazio, bagunçado com coisa nenhuma. Ela era muito cuidadosa consigo, mas seus cuidados doméstico eram de quem tinha 3 anos de idade. Ela refez a decoração com todo tipo de objeto estranho, antes guardados em suas bolsas. Seu quarto, a sala, cozinha, meu quarto e todo o resto receberam objetos novos. Todos os dias, tudo novo. Era como se todo o apartamento tivesse se tornado o seu quarto. Seu quarto bagunçado. Mas enquanto tudo fosse novo pra mim e de sua propriedade, tudo bem.
Quando viajava, sempre acabava encontrando um álbum de uma banda ou artista que refletisse o que foi a viagem. Como uma coleção de fotografia, meus CDs eram minhas recordações, as pedras do caminho. O que mais venerava era o álbum Pulse, do Pink Floyd. Sua primeira tiragem tinha um detalhe diferente, um pequeno led vermelho piscante, trocadilho com o título. Muita gente me ofereceu muito dinheiro por esse disco e eu nunca me desfiz. Ele era como um Monalisa para mim.
Era sim. Foi. Ou melhor: foi-se!
A maluca da Malu conseguiu sumir com meu CD. A caixa parecia ter sido atropelada. O detalhe do led estava morto, pressão muito a baixo de zero. E o disco. Bem, o disco espero que esteja bem e um dia me escreva. Eu perguntei o que havia acontecido, onde estava o CD, mas ela parecia ter sido possuída quanto realizou o ato, seja lá qual tenha sido, e repetia apenas que não sabia sobre o ocorrido. Eu não era o pai da sujeita, não a conhecia e não teria como dar-lhe um verdadeiro sermão ou palmadas a moda antiga. Mesmo assim ela conseguiu disparar os meus genes paternos e ainda ouviu muita coisa.
A única coisa que sei agora é que arrependimento não mata.
Buzz