Apartamento 172

A voz do silêncio

Publicado por: Malu em: 2009/06/25

Eu comprei roupa nova, pintei as unhas de vermelho, escolhi meus sapatos mais luxuosos, pesei na make up e treinei o carão no espelho. Tava transpirando poder quando saí do quarto e dei de cara com o Ruben deitado no sofá lendo alguma coisa que só ele entende.

Ele me seguiu discretamente com o olhar, mas não teve coragem de perguntar onde eu ia. Eu fingi que ele num tava lá e sai pela porta, deixando pra trás o cheiro do meu perfume mais caro  e um bilhete colado na porta dizendo que não voltava naquela noite.

Chegando no lugar onde eu havia marcado um encontro, sentei lindamente no bar e fiz cara de mulher solteira, resolvida, descolada, moderna, feliz e com o controle da situação. Pedi um drink de nome difícil e comecei a esperar. O relógio marcava 10:15 quando iniciou um longo período de espera por quem não ia chegar. As 11:15, metade do meu charme tinha ficado em uma das 7 vezes que fui ao banheiro retocar o batom. Me bateu um desespero e resolvi ir embora. Na verdade, resolvi sair correndo do lugar. Minha vergonha era tanta que a única coisa que eu conseguia pensar era em não olhar pra trás.

Eu voltei pra casa de táxi, arrasada, me sentindo a pessoa mais infeliz do mundo e achando que a culpa era dos meus sapatos luxuosos. A raiva era maior do que o meu vestido e menor do que o meu brinco. Mas era o suficiente pra eu querer morrer.

Quando eu pisei no corredor do apartamento 172, eu lembrei do bilhete na porta, da esnobada no Ruben e do quanto ele ficaria feliz em me ver arrasada daquela forma. Meu mundo caiu. Mas como eu não tinha pra onde ir, eu respirei fundo, torci pra ele está dormindo e abri a porta bem devagarzinho. Só que ao pisar no ap, logo ouvi uma voz dizendo:

___ Voltou cedo, Malu?

Eu quis chorar. Eu quis gritar. Eu quis morrer. Eu quis tanta coisa que num deu tempo pensar em nenhuma resposta inteligente, madura, bem resolvida, descolada e com o controle da situação. Eu até tentei, porém não consegui dizer nada. Então, o Ruben me fez um convite:

___ Senta aí e toma um vinho comigo?

As minhas pernas tremiam tanto, meu coração batia tão acelerado, meu descontrole era tanto que a única coisa que lembro foi que eu sentei no sofá, exatamente como ele pediu.

Ele entregou a bebida na minha mão.

Não me lembro de termos nos olhado.

Não trocamos mais nem meia palavra naquela noite.

Fomos apenas companheiros no silêncio.

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