Publicado por: Ruben em: 2009/07/03
Estava uma noite calma. Perfeita para dar uma volta. Até estrelas lembro de ter visto pela janela.
A Malu já devia ter visto. Sua produção de sempre não era a de sempre. Muito mais tempo no banho, muito mais tempo no quarto, centenas de idas e vindas entre quarto e banheiro. Tenho certeza que aquela não era um noite especial apenas para os astros.
Uma fogueira, alguém tocando violão e alguns amigos falando bobagens por causa do vinho cairia muito bem para deixar a noite divertida. Mas estava complicado para mim. Urbanismo jamais vai combinar com as boas e simples coisas. Naquela noite só me restava um pouco de leitura. Um vinho talvez. Aquele barato, que está na geladeira há umas semanas, pode ser de uma boa safra.
Nenhum dos livros, de tecnologia, de filosofia ou quadrinhos me fez concentrar. Parecia que eu não estava por completo na leitura, na sala, no tempo. Para quem não sentiu, a forma mais fácil de explicar talvez seja dizer que me sentia vazio. Um vazio pleno, que não me deixava nem mesmo pensar sobre como ou com que completar.
Por um breve instante houve a possibilidade de que isso fosse embora. Senti um cheiro agradável, mas muito intenso. Cheiro feminino, que, tão intenso, só podia ser de uma pessoa.
Toda aquela sensação de agrado, me fez sentir feliz. Era esse o cheiro que ela exalava, de felicidade e, como ela mesma diz, poder. Quando saiu do quarto, olhei pelo canto do olho e escondi um sorriso sereno e teimoso sob as páginas do livro que tinha em mãos. Tentei puxar assunto, mas acho que ela, tão concentrada, não me notou. Passo ante passo ela atravessou a sala e, depois de uma pausa na porta, saiu. Saiu mas deixou uma parte ali no apartamento, em todo aquela fragrância.
Eu já não estava tão vazio. Agora eu estava distante. Não sei exatamente por quanto tempo, nem fazendo o que, mas estive na varanda do apartamento, olhando para o nada por um bom período. Mas não foi por tempo suficiente para esquecer da imagem da Malu atravessando a sala. Entrei, abri aquela única garrafa de vinho de liquidação. Fazia planos de por fim a ela quando escutei a porta sendo aberta.
A Malu que saiu não era aquela que estava voltando. Ela não precisou nem terminar de trancar a porta, notei que tudo aquilo que tinha de positivo na sua saída ficou em algum lugar por onde esteve. Se enrolava pra trancar a porta com as três ou quatro chaves do molho, sua postura ereta e confiante se transformara na de alguém curvo, cabisbaixo, como quem desiste da vida.
___ Voltou cedo, Malu?
Tão rápido quanto fui para puxar assunto, fui para perceber tamanha a minha idiotice ao perguntar aquilo. Uma saraivada de agressões foi que esperei. Mas não veio. Silêncio. Uma pausa. Se apoiando na parede ela parecia tentar descobrir onde estava e quem estava falando. Não tinha dúvida, era algo realmente grave. Cheguei a pensar que era alguma coisa de saúde.
___ Senta aí e toma um vinho comigo?
Malu se recompôs lentamente e, ainda muda, se aproximou. Parecia muito distante. Ainda perguntei se estava se sentindo bem, mas ela pareceu não ouvir nada. Ficou ali, sentada e olhando para o nada. Lhe entreguei uma taça de vinho e respeitei seu silêncio. Nada mais foi dito naquela noite. Nenhum aroma, nenhum sorriso, a Malu com certeza não estava mais ali.
Como de costume, acordei cedo. Estávamos quase nas mesmas posições de quando bebíamos vinho. Malu apoiada no meu colo, dormia profundamente, inocente a tudo que havia lhe acontecido durante a noite. Dormia profundo ainda, pois nem se mexeu enquanto a ajeitava no sofá. Não somos bons amigos, mas me senti envolvido como se nos conhecêssemos desde a infância.
Recolhi a garrafa, copos, revisei a porta e achei o bilhete que ela havia deixado antes de sair: Não volto antes do amanhecer.
Fui dormir mais um pouco, mas ainda sentia cheiro de Malu por toda parte.
Ah, e quanto a piada no blog é o seguinte. O cara estava a procura de uma mulher, achou que tinha encontrado, mas pensou que alguém que coloca no email o nome de “amorinha” não era a mulher que ele havia idealizado.
A bem da verdade essa é uma piada com uma amiga, que é diretora de escola, participa do sindicato dos professores é marxista e o email dela é moranguinho alguma coisa.
[]s
2009/07/08 às 09:47
Pô, definitivamente bons blogs são escritos por quem bebe vinho e lê algo sobre filosofia, ou quadrinhos.
Na próxima vez tente ler a Mafalda.