Apartamento 172

Reticências

Publicado por: Malu em: 2009/07/12

Com o tempo, Rubens e eu adotamos algumas estratégias de convivência. Ok. Eu confesso que adotei por nós dois. Como eu falo muito e ele quase nunca responde, nós decidimos que eu ia continuar falando e ele ia continuar calado. Na verdade, nós nunca conversamos sobre essa decisão. Mas eu entendi que assim seria melhor pra nós dois. Eu falo, ele finge que não escuta e a vida segue.

Eu li em alguma revista moderna contemporânea que tudo é possível na combinação de um casal formado por uma mulher amarga e um homem calado. Tudo bem que casal não é a palavra para o momento.  E eu também não sou amarga, sou até muito agridoce, mas calado o Ruben é. E isso me irrita. O homem que bem soubesse não irritaria uma mulher, muito menos uma mulher  maluca, falante e de unhas vermelhas.

O Ruben é o tipo de cara que sente calor e fica calado. Ah, eu não aceito!!! Eu sinto calor e debato sobre o aquecimento global, a falta de consciência das pessoas sobre o meio ambiente e ainda relembro o meu desejo adolescente de ser ativista. Sim. Eu quis ser ativista, porém confesso que nunca soube ao certo o que isso significava. Mas sempre me imaginei respirando o ar puro e vivendo em contato com a natureza no Central Park, em Nova York.

O fato é que eu gosto do debate, das discussões acaloradas sobre qualquer coisa, desde que eu possa expressar as minhas teorias universais. Homem devia entender que mulher precisa falar para se sentir viva. Pelo menos, o Ruben devia. Mas a única coisa com a qual ele se preocupa,  é com os livros de tecnologia, filosofia ou quadrinhos. Certa vez, eu acho que ele ficou mais chateado comigo do que de costume quando disse que a única coisa que lembrava das aulas de filosofia, era de uma bronca que levei do meu professor por não saber responder uma pergunta sobre pré-socráticos. Até hoje num faço idéia do que seja pré, pós ou qualquer coisa socrática, mas guardo na memória que o  professor era um coroa grisalho muito charmoso.

Ao ouvir o meu comentário, o Ruben levantou levemente a sobrancelha e, finalmente, expressou algum sentimento por mim depois de algum tempo de convivência.

__ Taí uma coisa que irrita muito em você, Malu: a sua memória para assuntos nada relevantes.

E ali eu entendi que os nossos problemas de convivência faziam parte de uma longa história que ainda estava só no começo…

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