Apartamento 172

Filme mudo

Publicado por: Ruben em: 2009/07/13

Quando garoto tinha facilidade de me relacionar com adultos. Tinha papos inúteis para eles, mas muito significantes para mim. Meu jeito de argumentar sobre brinquedos e desenhos animados costumava derrubar o jeito sério de boa parte dos colegas ranzinzas do meu velho. Aliás, alguns desses colegas de meu pai estavam na minha lista de amigos. Conversava sem medo sobre todo tipo de assunto. Adulto é sempre cheio de segredo, sabia que podia confiar sem ter que pedir para que não contasse a ninguém.

Francisco era o mais próximo, entre todos, de um braço direito para o coroa. Pra mim ele já era meu esquerdo e, como ninguém ocupava a vaga de braço direito, logo, logo seria promovido. Conversávamos sobre todo tipo de amenidades e andávamos sempre juntos, pois meu pai, que não me acompanhava, sempre o colocava para resolver as coisas que eu queria fazer com quem devia ter vindo com certificado de melhor amigo desde a hora do meu parto. Foi uma lastima para mim Xiko ter desistido da promoção.

Dentre as muitas histórias que lhe contava uma delas fez muita diferença. Não só na proximidade que tinha com ele, mas mudou bastante minha sociabilidade. Estava próximo de terminar o terceiro bimestre da 6ª série e eu contei a Xiko que estava pensando em reprovar em matemática só para irritar o velho. Já que não tinha atenção dele por bem, teria por mal. Ele deu muita risada e deixou claro que concordava com o que havia lhe confidenciado. Dois dias depois meu pai estava no colégio entrevistando a professora sobre mim e meu desempenho. Entendi tudo: Xiko linguarudo. A professora falando a verdade me ajudou muito com elogios significantes, mas suas ultimas palavras – parece ser desatenção ou proposital – botaram tudo a baixo e eu consegui o que queria, muita atenção de meu pai.

O desfecho em casa não preciso comentar. Mas o desfecho em mim foi longo e tortuoso. Toda a fé que eu tinha nos homens sumiu. Falando muito, confiando demais em que não devia e com uma pitada de inocência, aprendi sobre quão valioso é o tal do silêncio. Eu consegui durante os anos seguintes voltar a ter fé nas pessoas, mas descobri que a minha história, pensamento e opiniões são responsabilidade minha, ninguém mais precisa saber. Continuei conversando com Xiko como se nada tivesse acontecido, mas transformei os assuntos amenos em amenidades ainda maiores. Nas poucas vezes que ele tentou questionar eu respondia:

____ Relaxa. Coisa de adolescente revoltado.

A Malu parece que percebeu que não tem jeito de me fazer falar muito e resolveu me imitar. Agora ela não fala mais. Aliás, ela fala muito, mas não comigo. As paredes e o vento são seu divã. Do nada, dias atrás ela passou por mim e questionou:

____ Nossa! Está quente hoje, não acha?

____ Sim, está quente – Respondi sem notar, pois na verdade não estava quente. Estava próximo de começar o inverno e a temperatura estava agradável. Não entendi.

Depois que ela resolveu dividir seu tempo em horas de falar muito e horas de ser muda eu comecei a notar que quando está calada ela balança sempre a cabeça como se estivesse dizendo não para alguém. E isso começou a me deixar nervoso. Se não bastasse, os assuntos que ela toma para me puxar para uma conversa são quase sempre nostálgicos. Da ultima vez, eu foleava o Sun Tzu e ela chegou perto falando de seu tempo de universidade.

___ Ruben, não sei como você lê essas coisas. Esse negócio de Sócrates, Platão, é tudo muito chato. Nunca entendi o que era pré-socrático, pós-socráticos ou intra-socrático. A coisa mais legal das aulas de filosofia era o professor, que homem charmoso. Poder! (…, …, …)

Eu sei que filosofia é sinônimo de loucura, mas entre Sócrates e o Sun Tzu só há relação no S. Fiquei desnorteado tentando entender onde ela queria chegar com aquele papo Platônico. Quando notei que começar o modo tagarela tive que interromper.

___ Malu, sei que você não gosta de ler sobre filosofia como eu as vezes me meto a fazer, mas eu não consigo entender como você consegue lembrar da cor do cabelo e o penteado de um professor da universidade e esquece até onde colocou as suas chaves cinco minutos antes.

Ira. Esse foi a expressão que ela fez ao me encarar e deve ter mantido depois que saiu pisando forte e batendo a porta do apartamento atrás dela.

___ Dias piores virão.

Soltei o livro e fui tentar encontrá-la, pensando mais uma vez sobre silêncio.

2 Respostas para "Filme mudo"

é bom conversar com adultos, nos inspiram até a crescer, e é tão legal ver por aquela toda pose séria brtoar um sorriso das nossas histórias infantis.

É, Camila. Conseguir um sorriso, seja de quem for, é sempre muito bom.

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