Apartamento 172

Cadê a Eureca?

Publicado por: Malu em: 2009/07/15

O telefone tocou. E o Ruben continuava imóvel no sofá olhando fixamente para o Tzu – o peixe de estimação dele. O telefone tocou novamente. E eu continuava olhando fixamente para os meus livros de Literatura Mulherzinha que chegaram minutos antes pelo correio. O telefone tocou mais e mais. E o Ruben me olhou feio. E, então, percebi que se tratava do meu celular. Atendi.

Do outro lado da linha, uma voz doce gritou meu nome. Parecia muito feliz e um pouco mais eufórica do que eu. Era Joana. Uma das minhas amigas mais feias da escola. Uma das poucas com quem ainda falava pelo telefone. Joana era também a que mais amava o vernáculo. Sempre disse que casaria com o homem que lesse suas palavras e não com aquele que apreciasse suas curvas. Curvas estas que ela realmente não possuía. Joana tinha cara de canela e pernas estúpidas, como naquele poema de Bandeira. Mas tinha mente criativa como a de poucas pessoas.

Ao contrário de Joana, eu nunca pensei em casar. Eu nunca soube que tipo de homem faria par com uma mulher excessivamente falante, apreciadora de um bom milk shake e de uma boa pizza de microondas. Lembro que durante algum tempo da vida, os meus únicos sonhos estavam bem distantes da vida a dois. Eu queria ser independente, empresária e saxofonista. A busca pela independência continua até os dias de hoje. Mas o sonho de ser empresária morreu junto com o de ser saxofonista, assim que uma tia minha disse que pessoas de negócios são seqüestradas com freqüência e saxofonistas morrem jovens com câncer no pulmão. Mudei de idéia imediatamente.

Eu mudei alguns sonhos, esqueci outros, realizei outros tantos e o mesmo deve ter acontecido com a Joana. Ela ligou para me avisar que vai casar em algumas semanas com um professor de Teoria Social de uma faculdade renomada em qualquer lugar aí pelo mundo. Em outras palavras, um cara que certamente deve apreciá-la pelo cérebro e não pelo corpo que ela tem. Parece que o período entre o namoro e o casamento foi bem rápido. Tudo na mesma velocidade em que eu corto de cabelo, troco de roupa e me apaixono por um sapato na vitrine.

Ao desligar o telefone, eu estava tão feliz que me deu até vontade de dançar, porém com um probleminha. Jô, como eu a chamava, disse que seria de bom tom que eu fosse acompanhada por um rapaz interessante e excêntrico, uma vez que todos os familiares e amigos do casal já eram casados, ou qualquer coisa parecida com isso, e eu ficaria um pouco ‘deslocada’ caso aparecesse sozinha. Eu sou capaz de fazer amizade em qualquer lugar. Decididamente esse não seria o meu problema, mas como ela pediu, então, comecei a pensar em alguém bem rápido.

Primeiro me veio à mente o Ted. Ele é meu amigo gay dos tempos da faculdade. Rapaz com estilo próprio, amante de filmes franceses, falante de alemão e admirador de uma boa música irlandesa. Apesar desse curriculum, eu lembrei que ele não era a melhor pessoa pra celebrar a felicidade no amor de alguém. Ainda sofre muito com os chifres do último relacionamento. Pensei no Rico, no Zé, no Carlitos e no Alê. Mas acho que nenhum deles se disponibilizaria a usar terno e gravata e, menos ainda, a ir a um casamento.

Foi, então, que no meio do meu pensamento silencioso ouvi um barulho. Caminhei pra cozinha e avistei Ruben expressando ódio pela panela que havia caído em seu pé. Coisas assim aconteciam sempre que o Ruben tentava fazer amizade com a cozinha. Ao ver aquela cena patética, o Ruben, a panela, o pé, o chão, eu pensei: por que não?

Enquanto o Ruben xingava até a décima geração da panela, eu imaginava quão simpático ele ficaria dentro de um terno. Até que por trás daquele ar meio rústico e pouco elegante, morava um sujeito com potencial pra meu acompanhante, pensei eu. Só que agora eu tinha outro problema. Como eu, chata, falante, implicante, louca, desmemoriada, ou seja, pessoa completamente sem credibilidade no mercado, iria convencê-lo a ir comigo no casamento da minha amiga Joana?

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