Publicado por: Ruben em: 2009/07/31
____ Não vou!
Meus diálogos com a Malu estavam restritos a esse mesmo tema. Aliás, o tema era o casamento de uma amiga imaginária, pois eu nunca dei notícias de pessoas reais próximas a ela. Tudo que eu sabia que ela tinha eram sapatos e quinquilharias que sobrecarregavam o seu quarto.
Ela insistia incessantemente que deveria acompanhá-la a tal casamento. Todo tipo de argumento plausível e indecente ela utilizou. As piores eram as promessas incumpríveis, como a de arrumar o apartamento diariamente por três meses. Ou de alimentar o Tzu até o fim da vida do pequeno. Sempre que essas investidas eram praticadas eu conseguia visualizar o apartamento sendo invadido pela vigilância sanitária ou o Tzu com seus dias de vida reduzidos a poucas horas, por excesso ou falta completa de ração.
____ Não vou!
Quando eu perguntava se ninguém mais podia fazer seu par na ocasião ela iniciava gigantescos monólogos detalhando a homossexualidade de alguém, a cornice de não sei quem, a rebeldia de fulano. Depois disso os relatos eram transformados em baldes de elogios direcionados a mim, que, de tão exagerados, necessitavam de palavras que eu nem sabia que existiam.
____ Não vou!
O casamento aconteceria em uma sexta-feira, mas na segunda-feira que antecedia o evento a Malu me deu paz. Definitivamente ela havia desistido de me colocar naquela posição, provavelmente por ter encontrado alguém disposto a ser o seu pinguim.
Puro engano. Quinta-feira, 21h30, a Malu chega da rua com uma cara de cansada, alguns pacotes aos ombros e muito lenta. Passa para o quarto e volta na sala em seguida e, como um olhar de gato faminto, me pergunta mais uma vez:
____ Ru – ela resolveu mudar meu nome – vamos comigo ao casamento da Jô?
____ Ene ah oh til.
Ela apenas virou, fechou a porta do quarto e não deu mais o ar da graça.
Alguns minutos depois eu não conseguia mais ler nada. Entrei naquele estado em que só mulheres conseguem deixar um homem, me sentindo cheio de culpa e tentando entender por que estava daquele jeito.
____ Caramba, já são mais de 22h, onde vou conseguir um terno a tempo. A cerimônia é as 10h… – Como um estalo, um plano infalível me veio a mente.
Liguei para casa dos meus pais, falei com minha mãe e perguntei se podia separar um terno do meu velho, pois iria precisar logo cedo (temos o mesmo porte físico, tamanho não seria uma preocupação). Ela relutou um pouco, querendo saber as circunstancias, pois também sabia que não usava terno sem um bom motivo. Ela cedeu rápido quando disse que era um casamento e que havia esquecido. Colou.
Logo que o sol bateu o ponto peguei a bike e pedalei até ao encontro do terno, pois teria que atravessar a cidade inteira, cada segundo era precioso. Quando cheguei ao apartamento dos velhos, eles estavam a mesa, tomando café. Notei que ficaram assustados com minha pressa e com a espontaneidade que estava falando. Minha mãe levantou e me fez acompanhar. Ao atravessar uma das salas passei na frente de um móvel antigo, espelhado, cheio de cristais e, mesmo com um reflexo muito distorcido, pude perceber que meus cabelos, da cabeça e do rosto, não estavam nada compatíveis com a situação.
____ Caramba!
____ O que foi, menino? – Minha mãe perguntou tão espantada quanto eu.
____ Preciso cortar o cabelo.
____ Eu te digo isso há alguns anos… Vamos, que eu resolvo isso também.
Não lembrava, mas quando era garoto e a família ainda era família por inteiro, era a mãe que cortava os nossos cabelos e as vezes da vizinhança, para fazer um dinheiro extra.
____ 9h30! Preciso de um táxi! Tenho que pegar a Malu e seguir para cerimônia.
____ Quem é Malu?
____ Ah, mãe! Não é hora para interrogatório! Ela mora comigo e foi quem me convidou para o casamento.
____ Sei… – Resmunga ela com ar de delgado investigando o único suspeito de um crime – Não chama táxi. Tome as chaves do meu carro, não vou usá-lo hoje. Mas quero você aqui no fim do dia com ele e com uma boa explicação para essa tal Malu.
Mesmo sabendo que a Malu sairia no último minuto possível talvez não desse tempo para chegar de surpresa e encontrá-la no apartamento. Pensei rápido em uma desculpa e liguei pro seu celular.
____ Malu, ainda está no ap?
____ Estou… – o ar de desamparo continuava na sua voz.
____ Então não sai agora. Estou de carro, indo aí. Te deixo no casamento.
Quando cheguei estava sem as chaves, então apartei a campainha. Ela abriu lentamente a porta e, ainda meio cabisbaixa, me fez lembrar do dia que chegou no apartamento. Foi levantando a vista, conferindo cada centímetro, de baixo para cima. Quando me olhou nos olhos, já estava de boca aberta e me deixou com duas certezas: Ela demorou alguns muitos segundos para me reconhecer e faltou força nas pernas.
Levantei as chaves e perguntei:
____ Vamos?
Buzz