Publicado por: Malu em: 2009/08/07
Passado o primeiro impacto de me deparar com o Ruben parado na porta do apartamento, usando terno, de cabelo cortado e sorridente, finalmente, chegamos ao casamento de minha amiga Jô. No caminho, eu pensei em fazer elogios pela performance visual do Ru (como eu o chamo quando não estou sentindo ódio dele), mas certamente eles seriam recebidos com um daqueles silêncios constrangedores que só ele sabe me proporcionar. Por isso, evitei qualquer palavra fora do lugar.
A cerimônia foi rápida. Mas não tanto quanto eu gostaria. Assim que o padre começou a explicar a origem da palavra aliança, eu bocejei e arranquei pontas duplas do meu cabelo. Os meus movimentos, por sinal, foram proporcionais aos do Ruben, que passou o tempo todo na igreja tentando fazer qualquer coisa indecifrável no celular.
Na festa, sentados numa mesa para sete ou oito pessoas, nós nos sentimos incrivelmente desconfortáveis nos primeiros setenta e cinco minutos, por causa da necessidade de dividir a mesa com gente desconhecida. A falta de assunto reinou no ambiente, apesar de todo o meu esforço. Eu num sei quem foi que inventou que mesa em festa de casamento deve ser para tanta gente. Será que os organizadores acham que as pessoas vão em caravana para esse tipo de evento? Ou será que eles acham que todo mundo se conhece? Num sei.
O outro problema, e mais grave, acontecia sempre que alguém perguntava se nós – Ruben e eu – namorávamos, éramos casados ou qualquer semelhante a isso. O Ruben ficava mais vermelho que as flores que enfeitavam o ambiente. Ele sentia vontade de morrer de tanta vergonha e eu, obviamente, com toda essa sociabilidade que a vida me deu, sorria e dizia ‘não’, acompanhado de qualquer comentário do tipo: “a festa está linda”, “os noivos serão felizes”, “confortável aqui, não é mesmo?”. Eu li em algum dos meus livros de etiqueta, comprados em sebo, que frases desse tipo preenchem vazios e cortam qualquer conversa desagradável.
Quando eu achei que as coisas estavam melhorando, chegou o momento de jogar o buquê. A noiva gritou, vociferou no microfone, o nome de algumas solteironas convictas, dentre eles, o meu. Eu fingi que tinha alguém me chamando no banheiro e saí de perto o mais rápido que pude. Ao olhar para trás, vi o sorriso de canto de boca do Ruben, se divertindo com a minha cara.
Casamento é evento social delicado que movimenta o imaginário de muita gente. Porém, as coisas pioram quando se é mulher, se tem quase 30 anos e nenhum pretendente, nem que seja, pra um sexo casual. Mas já que é necessário enfrentar esses eventos , eu prefiro que seja com discrição. Não vejo necessidade nenhuma de ficar no meio da festa, ao lado de outras 200 moças tão solteiras quanto eu, brigando por flores. Decididamente não.
Três horas depois o jogo acabou pra nós. Ou melhor dizendo, a festa acabou pra mim e pro Ruben. Com uma piscada de olho, eu entendi que esse era o sinal pra sairmos dali. Eu confesso que essa num foi a melhor festa da minha vida, mas valeu a pena só pela tentativa do Ruben de ser sociável e de dançar comigo ao som da música I say a little prayer for you. Exageros a parte, a gente quase fez uma cena do filme Casamento do meu melhor amigo.
Já em casa, antes de entrarmos cada um em seus quartos, eu agradeci pela companhia e, finalmente, tive coragem de elogiar a performance visual do Ruben.
__ Você estava bonito hoje. Muito bem vestido.
__ Obrigado.
__ Gostei do cabelo cortado também.
Sorrindo, ele apenas disse:
__ Não se esqueça de apagar a luz da sala. Boa noite.
Férias no apt?!?
2009/09/14 às 18:47
precisava ler esse texto agora.